DIÁLOGOS VISUAIS

A conversa possível entre a literatura e as artes visuais costuma gerar os mais surpreendentes e instigantes resultados. Uma manifestação disso é o trabalho plástico do jovem Márcio Zamboni a partir do livro de poemas O bestiário ou O cortejo de Orfeu, do poeta modernista francês Guillaume Apollinaire, que completa 100 anos de sua publicação em 2011.
Editado com xilogravuras de Raoul Dufy, o livro estabelece vasos comunicantes entre três tradições: os bestiários medievais, caracterizados pela coleta de imagens fantásticas; a poesia da Renascença, no sentido de exploração de um tema sob uma perspectiva temática; e o humor, muito ao gosto do simbolista Mallarmé com seus célebres jogos verbais.
Visualmente, Zamboni se vale do branco e preto para cristalizar sutis jogos de padronagens encontrados em calçadas e tetos das mais variadas procedências, dentro de um olhar em que figura e fundo são cruzados o tempo todo. Os animais do bestiário e corpos humanos surgem e desaparecem gradativamente em uma contínua caminhada de exercício do olhar.
A técnica utilizada tem como ponto de partida estudos disseminados pelos cadernos de viagem do artista, com um olhar tanto para os espaços e a arquitetura como para a caracterização humana. Um gosto pelas potencialidades do corpo, dentro de uma visão clássica, contribui também para uma apresentação que cristaliza uma poesia de imagens que dá a Apolinaire e a Dufy um frescor do século XXI.

Oscar D’Ambrosio, doutorando em Educação, Arte e História da Cultura na Universidade Mackenzie, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp. Integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

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